Travessia Angra dos Reis - Rio de Janeiro - 30 horas num caiaque

Por: Simone Duarte

Preparativos:

No dia 14 de março de 2000 sentei na cadeira diante do Marcos Bittencourt e do Célio Albuquerque, da Revista Náutica, e perguntei: "Gostaria de remar de Angra dos Reis ao Rio de Janeiro e chegar à Marina da Glória durante o Rio Boat Show, dia 07 de abril; é possível?" Apesar de se entreolharem espantados, e não esconderem certo desconcerto, deram-me apoio imediato e minutos depois já falávamos dos detalhes logísticos da travessia. Tudo foi muito rápido e objetivo, e acabei saindo de lá com um nó no estômago. De acordo com as datas acertadas, partiria dali a apenas 23 dias, e era enorme a lista de preparativos.

Simone ao longo da Barra da tijucaQuando organizo uma travessia uma das constatações mais agradáveis que faço é a de que, apesar de remar sozinha, levo em meu coração as pessoas que me ajudam a conseguir os meios, a pensar nos riscos e nas alternativas de segurança da empreitada. Esta lista se estende desde aqueles que prometem emitir boas vibrações e orações para as horas mais difíceis, aos que despendem algumas preciosas horas para melhorar o planejamento e aqueles que dispõem recursos para a viabilização. Sérgio Zuravel, do veleiro "Caso sério", ajudou-me a pensar na melhor rota e na organização do cronograma das posições. Adriana e Marcelo Martins, meus alunos, levaram-me para remar previamente na região mais crítica da travessia. Quando meu amigo Márcio Dottori disponibilizou seu veleiro "Carapitanga" para me acompanhar nos principais trechos da travessia, dei pulos de alegria. Se barco tem alma é com a do Carapitanga que tenho grande afinidade. Como o Márcio não poderia me acompanhar, seu amigo Leonardo Rodrigues aceitou o convite para acompanhar-me. Aninha e Alexandre falaram com o Pedro Maisonnave da Globalstar e Lauro Wöllner, disponibilizando recursos, provou mais uma vez o quanto acreditava em mim. Assim, com o coração "carregado" de incentivadores, parti para mais este desafio.

Chegou a hora
06 de Abril -04:30h


Desde a véspera o Carapitanga estava ancorado em frente à subsede do Iate Clube do Rio de Janeiro em Angra dos Reis -23°01'18 S / 044° 20'45W. Amarrado a boreste, perto da proa do veleiro, meu caiaque marca Aqqalu, de 4 metros de comprimento e 58 cm de boca, de fibra de vidro, com dois compartimentos estanques, aguardava o momento de ser lançado na água. Dentro do barco, ainda sonolenta, eu juntava os equipamentos, tomava um café da manhã reforçado, fazia alongamentos e revisava as posições com que previamente alimentei o GPS. Estava tensa, mas bem humorada.Expus previamente ao Leo que não gostaria de receber qualquer auxílio externo durante o percurso. Eu levaria a bordo do caiaque a água e alimentação necessárias. Ele participaria como mero observador, somente em caso de emergência interferiria no processo.

O flash da primeira foto da travessia foi o sinal luminoso que demarcou a largada oficial para a ação da primeira remada. Olhei o relógio e, preocupada por não ter começado a remar as 04:00h como previsto, despedi-me do Leo decidida a tirar o atraso do planejamento inicial e mergulhei no breu, tendo na popa os lampejos do strobe.

Surpreendentemente, a força da maré vazante estava muito forte. Na primeira parada para me alimentar, duas horas e vinte e cinco minutos depois, o Leo gritou, avisando que consegui desenvolver a média de incríveis 4,3 nós (8 Km/h) e havia conseguido tirar o atraso inicial. Eram 07:00 h e estava a nove milhas (16 Km) da posição inicial. Estava conseguindo a vantagem de 1,3 nó com a força da maré. Não podia parar muito. Tinha de aproveitar.

Cheguei ao canal de demanda para o Terminal da ilha Guaíba, já na baía de Sepetiba. Estava satisfeita de ter cumprido estas 15 primeiras milhas (27 Km) em 4 horas. Devido aos fortes ventos que estavam sendo esperados para o período da tarde, decidi ir pelo interior da baía de Sepetiba, enquanto o Carapitanga iria por fora da restinga de Marambaia. Combinei com o Leo os horários de contato pelo Globalstar, quando eu apenas passaria a posição em que me encontrava, meu estado geral e voltaria a desligar o aparelho. Era necessário economizar bateria para o caso de alguma situação de maior emergência. Recomecei a remar às 09:15h e senti certa melancolia ao separar-me do Carapitanga. O sol estava intenso e o vento ainda não se manifestara.

Começo da Agonia

O calor infernal, o vento e a maré contra foram responsáveis pelo mau desempenho entre 11:00h e 12:05h, hora em que cheguei à ilha do Bernardo, 23°01'42 S / 043°57'23W, tendo cumprido apenas 2,1 milhas (3,8 Km) nessa última hora. Na ilha do Bernardo resolvi parar numa pequena praia para comer com tranqüilidade e sem sofrer retrocessos causados pelo vento. Completara 23 milhas (42,5 Km) em 07:30h e fiquei feliz ao constatar que a velocidade média foi a dos 3,0 nós (5,5 km/h) desejados no planejamento inicial. Recomecei a remar às 12:30h. Com o mar e o vento desfavoráveis, segui em direção à ilha da Pombeba.

O vento aumentou, as ondas cada vez mais se avolumavam, o dia estava lindo e a água do mar estava clara. Meus braços se esforçavam em deslizar o caiaque sobre aquelas ondas com padrão caótico, e, sem forças para contrapor o vento, fui lentamente sendo jogada na grande praia da restinga de Marambaia. Fiquei mais tensa ainda: estava, sem querer, invadindo a área reservada para exercício militar, onde a navegação é proibida. Para piorar meu estado de espírito, bati com o caiaque numa estrutura sólida e lisa e engoli em seco ao constatar que era o pedaço da asa de um avião, com cerca de 2 metros quadrados, que flutuava ao nível da água.

Quando eram 14:00h, tentei parar para telefonar para o Carapitanga, mas retrocedi muito. Não tendo escolha, tive de remar para a praia e parar. Quando estava teclando o telefone, um ruído ensurdecedor veio do céu. Que susto! Eram caças da Aeronáutica desenvolvendo vôos rasantes sobre a Marambaia. Ai, Meu Deus! Já tinha visto pedaço de avião lá atrás e agora só faltavam eles entrarem em treinamento. Falei com o Leo às 14:10 e me localizei em 23°02'50 / 043° 52'20. Perguntei como estava o vento lá fora ao que ele respondeu estar tranqüilo, apenas cinco nós. Não entendi nada. Como era possível? Enfim, não discuti. Mais tarde saberia a verdade: ele não quis me apavorar, mas medira no anemômetro ventos com lufadas de 18 a 22 nós (33 a 40 Km/h).



>Continuação

 Volta | Inicio da página | Página principal
Aventura | Bike | Adventure Race | Montanhismo | Voo Livre