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Desse
ponto em diante, vivi alguns dos piores momentos desta travessia.
Quis me afastar da área de treinamento e ir para o centro da
baía de Sepetiba, mas o vento me atirava, cada vez com mais
força, sobre a praia da Marambaia. Remando com dois palmos de
lençol d'água, o GPS acusava 1,7 nós (3,0
Km/h). Meio debilitada pelo cansaço de tantas horas já
remadas, fiquei tensa ao constatar que teria de remar durante a
noite para poder atingir Barra de Guaratiba, o que me desanimava
mais ainda. A batalha psicológica estava tão feroz
quanto o vento. Quando já estava me acostumando aos rasantes
dos aviões a jato, ouvi um estrondo seco, a cerca de 1000
metros do meu través de boreste. Diante da constatação
que eu não era culpada por estar ali, que o treinamento
estava em andamento e não daria para desencadear um resgate,
mesmo que eu quisesse: entreguei a alma a Deus. Ainda bem que meus
braços não doíam, e eu conseguia remar, a passo
de cágado, pois no resto do corpo todo, apareciam cãibras
ocasionais provocadas pela tensão. Fechar os olhos já
era motivo de descanso e numa atitude autodefensiva resolvi ignorar
o que acontecia no ambiente e me preocupar somente comigo. Contava
10 remadas de olhos fechados e os abria para corrigir o rumo. Quando
ouvia o rasante dos caças, abria os olhos e constatava
aliviada a competência dos pilotos com o alvo.
Anoiteceu!
O vento continuava forte. Via ao longe as luzes das cidades de
Sepetiba e Pedra de Guaratiba. Na minha proa um breu pouco animador.
Acendi a luz do strobe de novo e pendurei uma luz química nas
costas. Senti certo conforto ao constatar pescadores que lançavam
ao longe redes, juntamente com bóias luminosas. Às
18:40h, me agarrei numa bóia luminosa para não
retroceder com o vento. Constatei o avanço de mais 4,5
milhas, velocidade média 2,3 nós e posição
23°03´45S / 043°42´84W.
Comecei a
ficar na dúvida sobre a entrada do canal: era difícil
distingui-lo naquela escuridão. Resolvi tirar minhas dúvidas
com alguns pescadores. Ao aproximar-me recebi a saudação:
"Oba, companheiro!". Ouvi o comentário assustado "Nossa!
É uma mulher!" Logo após minha saudação
de boa noite. Aproximei-me e perguntei sobre a entrada do canal.
Antes de responderem, um deles perguntou-me de onde eu vinha e, ao
ouvirem Angra dos Reis, ficaram surpreendidos. Aproximando-se para
iluminar meu rosto, um deles exclamou: "Ô dona, por isso
que a senhora tá cum essa cara". Soltei uma gostosa
gargalhada. Realmente, eu deveria estar horrorosa. "Toma um café
pra aquecê um pouco". Achei que seria desfeita não
aceitar. Após despedir-me deles, fui seguindo as indicações
das bóias. Finalmente, achei o canal. IUPIII!
"Método
Braile" no Manguezal e a "escolta de peixinhos" "Alô
Leo, anota aí 20:33h, 23°01´90S / 043°36'97W".
Estou bem. A maré tá muito baixa. Tenho um palmo de água
pra navegar." Ao desligar o telefone a alegria se
transformou em apreensão: como era difícil dar mais de
cinco remadas sem encalhar.Tateando o fundo com o remo e espantando
os peixes que pulavam apavorados, fui avançando pouco a
pouco. Num momento muito feliz de integração com a
natureza, observei que, quando me aproximava de um lençol d'água
muito raso, os peixes que lá nadavam, pulavam, fugindo na
direção de águas mais profundas. Daí em
diante, percebi que quando eu ia encalhar, os peixes pulavam,
indicando a direção correta para a qual eu deveria
remar.
Sob a ponte de acesso à restinga de
Marambaia tive a última surpresa do dia: a maré de lua
nova estava tão baixa que para chegar ao mar teria de
arrastar o caiaque sobre uns 200 metros de banco de areia. Dei
um berro de alegria quando vi acesa a luz de top do mastro do
Carapitanga. A noite calma e o mar espelhado testemunharam minha
silenciosa aproximação do veleiro. Enfim, às
22:30h, estava a 23°04'09S / 043°34'17W, na enseada da
praia de Barra de Guaratiba, finalizando uma pernada de
aproximadamente 50 milhas (92 Km) em 18 horas de remada.
07
de Abril - 05:50 Com apenas cinco horas de sono, que
aliviaram um pouco o cansaço, eram 06:30h quando recomecei a
remar. Para chegar ao Rio de Janeiro faltavam 25 milhas (46 km). O
ar estava parado, mas o mar estava bem agitado. Tal agitação
durou até quando cheguei ao través do início da
Praia de Grumari (23·05'00S / 043·32'30W). Eram 07:30h
quando o mar ficou um espelho e, já aquecida, resolvi dar um
tiro de velocidade. O atraso na programação e o medo
do vento leste, que provavelmente apareceria mais tarde, fizeram-me
bater meu próprio recorde pessoal, o que só percebi
quando o Leo berrou: "Você está indo muito bem. Já
viu sua velocidade?" Estava tão concentrada na remada
que esqueci de olhar para o GPS. Quando olhei para baixo e vi o
aparelho variar entre 4,8 e 5,3 nós (8,8 a 9,8Km/h),
acreditei na marca mais baixa e berrei para ele: "É o
medo do vento". As 4,5 milhas (8,3 Km) seguintes foram
cumpridas em uma hora e cheguei ao través do Recreio dos
Bandeirantes as 08:30h.
Outra Agonia Cheguei
ao quebra-mar da Barra (23°02'50S / 043°17'50W) eram
12:30h. Como estávamos no alcance visual um do outro, eu e
Leo não usamos o telefone, mas notava que ele estava sendo
bombardeado por telefonemas da imprensa, que queria saber como
estava indo a travessia e queria uma previsão de chegada à
Marina da Glória. O vento já soprava fraco desde as
11:00h. De repente, quando ia parar para descansar um pouco, ainda
no través do quebra-mar, o vento começou a soprar com
toda força e para complicar mais ainda comecei a sentir uma
forte dor de cabeça, seguida de náuseas. As poucas
horas de sono e o sol forte castigavam meu já debilitado
organismo. Do jeito que o mar estava batido, aproximar-me do barco
foi difícil. Alternado entre o telefone que não parava
de tocar e a preocupação de me dar apoio, o Leo teve
de se desdobrar. Fiquei segurando o barco pela popa para não
retroceder muito com o vento. Só melhorei após meia
hora, depois de dar uma chuveirada de água doce no rosto e na
nuca. 13:00h - Em condições normais poderia cumprir as
próximas seis milhas (11 Km) até a ponta do Arpoador
em duas horas, mas o vento me chicoteava e o mar ficou bem batido.
Recomecei a remar me sentindo fraca e debilitada. Foram os 230
minutos e as seis milhas (11 Km) mais longas de minha vida de canoísta.
Fiz a média mais baixa de toda travessia: 1,5 nó (2,7
Km/h). Não gosto nem de lembrar daqueles momentos. 17:30h -
Ponta do Leme (22°57'90S / 043°09'30W) - O vento e a maré
resolveram me ajudar. Cheguei à entrada da baía de
Guanabara. Na base do Pão de Açúcar, o mar
ficou bem batido. Ao passar pelo través da Praia de Fora do
Forte de São João, vi alguns pontinhos vermelhos
flutuando, vindo em minha direção. Arrepiei-me de emoção
ao constatar que os tais pontinhos eram os coletes salva-vidas de
cinco de meus alunos da Escola Naval que vieram de caiaque me dar as
boas-vindas. Quando cruzávamos o Forte de São João,
apareceu a lancha "Pense Leve", onde reconheci o Plínio
e o Jair trazendo repórteres a bordo. O pôr-do-sol
dourado deve ter dado belas imagens para eles. Os flashes nos
inibiram um pouco e voltei a me concentrar na remada. O Leo, no
Carapitanga, se afastou e me deixou com a escolta. Fiz uma rápida
parada para entrevista no mar. 1 8:10h - Entrada da Marina da Glória
- Ouvi alguém berrando meu nome lá das pedras.
Aproximei-me e identifiquei o Carlos Sposito, pulando de alegria.
Soube posteriormente que fizera muitas ligações para o
Leo para saber como estava ocorrendo a travessia. Ele ficou
atualizando um site na internet, de forma que a travessia pôde
ser acompanhada on line pelos curiosos. Festejei mais ainda as
facilidades do Globalstar. Meus alunos e o tenente André, da
Escola Naval, carinhosamente me escoltaram em formação
até o píer B.
Finalmente, rolou no meu rosto
a lágrima no escuro, em que poucos repararam. Era o alívio
de entrar, sob aplausos, no dia de abertura do Rio Boat Show 2000,
na Marina da Glória. Lá estava eu chegando ao Rio de
Janeiro, vinda de Angra dos Reis, remando com a força de meus
braços, encerrando 75 milhas (140Km) em 36 horas de remada,
intercaladas por apenas 5 horas de sono. Meu Deus! Eu consegui!!!!!!
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