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<...continuação Estava
-15 graus dentro da barraca , fora -25 . O Rafael ligou a lanterna e
o teto da barraca era o maior visual , todo cravejado de cristais de
gelo provenientes da condensação interna . Qualquer
movimento era uma chuva de gelo em cima da gente . Agora vinha uma
das partes mais duras e trabalhosas ....sair do quentinho do saco e
colocar as botas duplas , grampões , etc , naquelas condições
. A lua estava cheia , maravilhosa , fazendo com que as lanternas de
cabeça fossem simples adornos . Tomei 2 chícaras de chá
e comi meio pão . Formamos 2 "cordadas". Eu estava
com o Adriano e com o Cezar . Os outros 3 formavam uma cordada com
Abel . O Basco foi conosco . Fomos bem , num passo devagar mas
constante e firme . A beleza da lua sobre o glacial fazia-nos
esquecer o cansaço e o frio ( estava mesmo muito frio e como
a escalada se mostrava em alguns trechos técnica , tínhamos
que tirar as luvas superiores para escalar , isto me valeu um dedo
amortecido até hoje - o mindinho ) . O Aitor sempre escalando
sem segurança o que me dava arrepios . Qualquer erro poderia
ser fatal ou um ferimento muito grave . Este procedimento punha em
risco a nossa escalada também , pois se algo lhe acontecesse
teríamos que ajuda-los . Paramos para contemplar o pôr
da lua as 05:00hs e ligar as nossas lanternas de cabeça ,
pois ainda tínhamos uma hora de noite . Ultrapassamos as
partes mais perigosas da montanha que ficam na encosta e enfim
chegamos na rampa do Huascaran que leva ao cume . O dia já
estava amanhecendo . Era só caminhar . Ela é
gigantesca , a gente vê o cume e não chega nunca . Como
diz o Abel , o cume do Huascaran é uma pampa , e por isso a
possibilidade de decolar . Os primeiros raios de sol já
iluminavam a costa leste do Huascaran norte que é 200mt mais
baixos que a do cume do sul para onde estávamos indo.
Já
estávamos mais alto que todas as demais montanhas da
Cordillera Blanca . O visual era alucinante com raios de sol
iluminando de dourado os nevados abaixo . Era a Segunda vez que eu
estava escalando esta montanha ( a primeira foi a dois anos atrás
com o Schiochet e com o Rubem Wageck ). A plena certeza de novamente
chegar ao cume desta imponente montanha e a possibilidade de decolar
de parapente de seu cume me arrepiava .A adrenalina corria solta e
começei a sonhar intensamente com o vôo , enquanto dava
os últimos passos em direção ao cume . Estava
me vendo voar a quase 7000 mt sobre todos os imponentes nevados da
cordillera , me via pousando a 4 km abaixo , estava com um nó
na garganta .
Chegamos a 6:40hs no cume . O César ,
o Adriano e eu . O Basco já havia chegado antes , uns trinta
minutos atrás . Festejamos os quatro a chegada e eu com um
misto de felicidade e decepção - o vento passava dos
60 por hora . Impossível a decolagem nestas condições
. Tanto esforço . A temperatura estava na casa dos 30
negativo e a sensação térmica muito abaixo
disto devido ao vento . Passado uns trinta minutos , sem sinal de
melhora da condição o Basco começou a baixar .
Lembro-me de termos combinado de comer algo juntos no acampamento 2
. Tínhamos nos tornado amigos , ele viria para o Brasil para
voarmos juntos. Ficamos mais um tempão no cume esperando o
vento amainar , e como o vento não diminuia , muito pelo
contrário , tinhamos que começar também a
baixar . Estávamos congelando . Eu com um misto de alegria
por novamente ter conseguido escalar esta magnífica montanha
( e também pelo sucesso do Adriano ) e tristeza vendo o
paraca baixar nas costas do César . Bem , nem sempre tudo dá
certo . Qualquer modo , pensei , vou procurar uma condição
segura mais abaixo... que eu decolo daqui deste morrão , eu
decolo .
Quando chegamos quase no campo 2 , uma desagradável
surpresa , muito desagradável para todos , mais especialmente
para nós que tínhamos comemorado o cume com o Basco .
Ele não havia regressado . Sua imprudência lhe custou
muito caro . Sua vida .Como o Suiço , ele havia caido numa
das inúmeras gretas e só foi resgatado três dias
mais tarde a 120 mt de profundidade . Não era o primeiro do
ano no Huascaran , era o terceiro. A montanha estava cobrando caro .
Foi a primeira vez que uma pessoa que está comigo em uma
escalada perde a vida . Fiquei meio apático quanto ao fato .
Todos ficamos . Pelo menos nossos rádios ajudaram a acionar
mais rápido o resgate . A nossa esperança é que
ele teria caido em um local mais seguro , e não estava
conseguindo voltar , ledo engano . Chegamos ao campo 2 , ainda cedo,
ainda na hora que as outras expedições estavam alcançando
o cume . Recolhemos as coisas e baixamos direto para o campo 1 .
Fomos um pouquinho abaixo , no campo Morena onde acaba o glacial a
4800mt de altitude . Chegamos lá já era noite ,
completamente exausto . Estávamos em atividade direta a 18
horas . De descanso só o tempo que ficamos no cume a menos 30
e um vento infernal . Comemos algo , armamos as barracas e cai num
sono profundo . Só sai da barraca com o sol batendo forte .
Como é gostoso este calor . Tomamos café e nos
despedimos do Abel que voltava para cima para guiar uma expedição
francesa e começamos a arrumar a tralha . O paraca nas costas
do César.
Antes
de começar a baixar para o Base e finalmente Musho , fiquei
sentado um tempão olhando para o fundo do vale a 2000 abaixo
e para o cume do Huascaran sul a 2000 acima . Uma sensação
de sucesso e decepção me invadiu . Começamos a
baixar e de repente sinto uma leve brisa de frente . Começei
a procurar um local propício para uma decolagem e decidi por
um . Era uma plataforma inclinada com um monte de pedrinhas . Seria
uma decolagem sobre obstáculos . Altitude aproximada de
4800mt . Desmontei as mochilas , armei o paraca e fiquei esperando
aumentar um pouco o vento . Eu não tinha muito espaço
para correr e com o ar rarefeito precisava um pouco de pressão
. Já estava a mais de 30 minutos esperando , e como o vento não
aumentava , estava entre 6 e 8 , dei a primeira tentada - o paraca
subiu rápido na cabeça e fui ... pulando sobre as
pedras ...deu certo ...decolagem tranqüila . 2Fiz um vôo
de 40 minutos , com algumas rodadinhas , voei bem alto sobre o campo
base , ví que todas expedições pararam para
olhar , todo mundo lá em baixo me olhando e só eu lá
em cima olhando para todos .
Curti como nunca este vôo
. Lembrei do meu amigo Basco , fiz uma preçe e lhe desejei um
feliz vôo . Pousei em Musho a 2900 mt de altitude . Foi num
campo de futebol e toda a vila veio me recepcionar . Comi arroz com
ovo e bebi uma Fanta de 2 litros e tive de esperar mais de 5 horas
por meus amigos que baixavam .....a pé .
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Veja
também:
Illimani
:Um brasileiro escala e decola de paraglider do Illimani, nos
Andes Boliviano , a 6439 mts de altitude. |
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