Illimani: Uma Aventura a mais de 6000 mts.

Texto e fotos: Gil Piekarz

Às 13:30 horas do dia 12 de agosto de 1999 cheguei ao cume do Illimani, Andes Bolivianos, a 6439m de altitude, em companhia de Adair Schizzi e do Cecílio, "porteador" peruano contratado para me ajudar a carregar o parapente morro acima. Uma hora mais tarde, às 14:30h, decolei de uma pequena plataforma de gelo 200 metros abaixo do cume para um vôo termal/dinâmico de 45 minutos. Pousei no campo base do Illimani, a 4450 metros de altitude, completamente exausto. Vinha de três dias de escalada e de uma temperatura de aproximadamente -10º com ventos de 15 a 30 km/h, e agora estava a uns 15º positivos e sem vento. Desatei o paraca, tirei as pesadas botas duplas com grampões e, do jeito que estava, dormi pelo menos uma hora, e muito feliz. Meus companheiros só retornaram do alto da montanha no dia seguinte, após um monte de horas de caminhada (he, he).
 O Illimani é o ponto culminante e principal montanha da Cordillera Real, Andes Bollivianos. Esta cordilheira tem 200 km de extensão, no sentido noroeste-sudeste e bordeja o lado oriental do Altiplano Boliviano (4000 metros de altitude média), com La Paz e o lago Titicaca de espectadores. Trata-se de um local mundialmente conhecido e muito procurado para a prática do trekking e da escalada, dada a grande quantidade de montanhas com cumes acima dos 6000 metros e com diversos graus de dificuldade. Tudo isso aliado a uma paisagem esplendorosa. Porém, não é comum a prática do vôo livre nessa região, devido aos fortes ventos. O forte do vôo livre na Bolívia está em Coroico - nas Yungas - e em Cochabamba. Mas estou certo que, na região do lago Titicaca, próximo a Copacabana, o potencial é bom para o vôo, como tive a felicidade de comprovar.

A nossa expedição, Cordillera Real -1999, foi composta pelos montanhistas Adair Schizzi, Adriano Formiga, Jorge Cambiaso e eu. O objetivo do grupo era escalar duas montanhas: o Illimani e o Illampu, ambas com mais de 6000m. Participei apenas da escalada do Illimani, onde meu objetivo principal foi decolar de parapente do cume e voar acima dos 6 mil metros de altitude.

 Chegamos a La Paz no em 31 de julho e dois dias mais tarde fomos para a cidade de Copacabana (que deu origem ao nome da nossa Copacabana), na região do lago Titicaca (o lago navegável mais alto do mundo, a 3810 metros de altitude e 8500 km²). Meu objetivo era, além de estar em processo de aclimatação à altitude, fazer dois vôos de parapente em altitudes superiores a 4 mil metros, para experimentar o vôo em ar rarefeito. Tive a oportunidade de voar sobre o Lago Titicaca e sobre a cidade histórica de Copacabana. Um visual indescritível. Voltando a La Paz, seguimos para a região do Vale do Condoriri, já na Cordillera Real, para um processo mais apurado de aclimatação. Acampamos a uma altitude de 4200 metros e fizemos caminhadas forçadas até o Monte Tarija (5200m), em zona glacial. Feita a aclimatação, partimos para o objetivo central: escalar o Illimani e eu, em particular, tentar o vôo do cume.

A escalada do Illimani demandou 4 dias. No primeiro dia chegamos ao Campo Base (4450m) após 4 horas de caminhada, subindo um desnível de 1000m desde o povoado de Una. No segundo, partimos para o Campo Alto - Nido de Condores - vencendo novamente um desnível de 1000m, onde acampamos a uma altitude de 5500m.
Partimos para o cume na madrugada do dia seguinte, às 03:45h, numa madrugada gélida (devia estar uns 20º negativos), porém muito límpida. La Paz ao fundo, com suas luzes, fazia-nos esquecer o cansaço e o desconforto do frio e das pesadas roupas e equipamentos de escalada. E Cecílio com meu parapente às costas: eu admirava sua força.

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