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continuação
Terça feira, 8
de fevereiro, partimos para o próximo acampamento - Salto - a
4.200m de altitude. A partir de Piedra Grande não há
mais verde, só pedra - ambiente muito árido. Começamos
a subir pelas morainas (depósitos de geleiras com pedras de
todos os tamanhos, desde grandes matacões até poeira)
e após umas 3 horas de caminhada chegamos a Salto, uma
plataforma suspensa no meio do circo de montanhas. O Vallecitos
estava bem à nossa frente, a 1.500m de desnível. Havia
mais 4 barracas, principalmente argentinos.
Esta região
é muito diferente da região do Aconcágua com
seus milhares de escaladores. É tranquila, pouca gente,
sossegada. O contato com as montanhas e com a natureza é mais
intenso. O tempo não estava mais aquela maravilha, muitas
nuvens e precipitação: neve. Parecia que iria piorar
nos próximos dias, por isto resolvemos partir para o cume do
Vallecitos já no dia seguinte, apesar de nossa parca aclimatação.
Fizemos isto. Saímos as 7:00hs do dia 9 de fevereiro e
chegamos no cume do Vallecitos ao meio dia. O vento estava insuportável.
Quando chegamos na crista da montanha, a 5.000 de altitude, vimos
todo o esplendor dos Andes com a Aconcágua ao fundo. Mas o
vento não nos deixava em paz, passava de 60km por hora com
rajadas superiores a cem que nos atiravam ao chão. Isto com
uma temperatura negativa que fez com que minhas mãos
congelassem 3 vezes. Eu havia deixado as minhas luvas pesadas na
mochila do David e fiquei com preguiça de pegá-las.
Usava apenas uma luva fina e uma sobremitena. Resultado: um dedo
ficou quase um mês amortecido. Os últimos 50m do
Vallecitos é técnico e aí fomos somente o Beng
Cheong e eu. O David ficou no pé da parede. Sabem por quê?...
Aqui vem a outra história de garra e determinação.
Há
dois anos atrás, David, após a escalada do Everest
pelo Nepal onde foi o chefe da expedição, foi
acometido pela síndrome Guillan-Barret (nada a ver com a
escalada ao Everest), onde teve todos os seus músculos
paralisados e teve que respirar com aparelhos. Após um esforço
descomunal foi se recuperando, mas ficou com seqüelas. Em
setembro do ano passado ele ainda andava de muletas e durante esta
escalada ainda não tinha o movimento vertical de um dos pés
e alguns músculos da mão e da perna ainda não
funcionavam, por isso não podia escalar tecnicamente. Para os
pés não "caírem" ele usava um tipo de
plataforma em L segurando o pé. Pois bem, além de
escalar o Vallecitos, 15 dias depois ele ainda chegou ao cume do
Aconcágua por uma via difícil, a "via de los
polacos" (existe uma descrição desta escalada no
site www.everest.org.sg). Esse é um grande exemplo de que o
determinante é a vontade de querer.
Baixamos do
cume e no caminho encontramos com a turma do Terzo montando um
acampamento avançado a 4.800m. Tiramos fotos, conversamos
bastante e nos despedimos. Eu estava realmente admirado e grato por
ter presenciado, em ambiente tão hostil, a determinação
de certas pessoas de não se deixaram vencer, nem pela idade,
nem pelas doenças. Para tornar a nossa vida fascinante só
depende de nossa própria vontade e determinação.
Quinta-feira
voltei sozinho da montanha para Mendoza, estava ansioso para voar de
parapente, minha outra paixão. Voei na sexta e no sábado.
O David e o Beng Cheong ficaram um dia a mais em Salto forçando
a aclimatação para o Aconcágua. Domingo peguei
o bonde para o Brasil, pois tinha que trabalhar na segunda.
Assim
foi que passei uma semana nos Andes Argentinos, escalando e voando.
Para mim o mais importante não foram estas atividades em si,
mas ter aprendido com o David e com o Terzo que não existem
barreiras intransponíveis para se concretizar o que realmente
queremos de coração, desde que façamos.
Em agosto deste ano estaremos indo para os Andes Bolivianos,
possivelmente para escalar o Sajama com 6.600m de altitude, ponto
culminante da Bolívia e, no fim do ano, o Mercedário
(Andes Argentinos, com 6.850m) e o Ojos del Salado (Andes Chilenos,
com 6.908m) como parte da preparação da nossa escalada
ao Everest. Até a próxima.
Contato Gil
Piekarz: gp@onda.com.br
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