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O fim da descida, após 10,1km e cerca de 2:15h, ocorreu no encontro do rio Colorado, a 731m de altitude. Neste ponto havíamos variado 1481m verticalmente. Após cruzarmos a Kaibab suspension bridge corremos cerca de 2km quase horizontalmente até começar uma tenebrosa e inesquecível subida de 21,5km, com uma variação de altitude de 1784m.

Com o peso dos equipamentos a subida tornou-se muito mais cansativa, mas como fazer para não levar água, lanterna, alimentos energéticos e casaco? Simplesmente o risco seria incalculável em uma situação inesperada, como anoitecer antes de chegarmos ao fim ou o frio tornar-se um impeditivo em um local em que não havia condições de arrependimento. Por isto resignamo-nos a correr com alguns quilos às costas, coisa aliás que estávamos acostumados após os sete dias no Sahara, totalmente auto-suficientes.

Depois dos primeiros minutos em que tudo são flores (e fotos), a altitude começou a fazer efeito. Não estamos falando de uma caminhada pela cota 2000, onde qualquer pessoa com um mínimo de preparo físico não percebe o decréscimo de oxigênio no ar. Isto começa a acontecer em torno de 4000m. Mas aqui o assunto era mais sério: correr nesta altitude nem de longe lembrava uma caminhada. A necessidade de oxigênio fez-se presente não na forma de falta de ar, mas no cansaço e dores na musculatura impulsora da perna.

Durante algum tempo foi possível conviver com isto. Porém, quando já havia vencido um bom pedaço mas o que faltava parecia maior ainda, foi humanamente impossível fingir que nada estava acontecendo. A partir deste ponto os trechos de corrida eram intercalados com caminhadas e os pontos de parada para descanso começaram a ficar menos distantes. O que nos ajudava era a temperatura extremamente agradável à sombra.

Para piorar o fator psicológico, Cathy levou um altímetro de pulso. A cada 100 metros que vencíamos verticalmente ela comemorava, sem olhar o outro lado da moeda: ainda faltavam muitos outros cem metros a vencer. Quando estávamos a menos de 700m verticais da chegava (o que significavam vários quilômetros a correr!) a trilha deu uma guinada para baixo e não parou mais de descer. Cada metro descido era chorado mais do que quando foi subido, pois significava o dobro de sofrimento. Quando já não entendia mais porque descíamos tanto, chegou a explicação. O ponto final de nossa travessia não era na face que estávamos subindo, mas na face oposta. A trilha subia a primeira face apenas para contorna-la, desce-la em seguida e pegar uma ponte suspensa no nada que levava à outra face. Agora sim, deveríamos subir tudo novamente. Tem que haver muita força psicológica para aturar!...

Depois deste contratempo a subida realmente começou a parecer uma subida. Nada mais de descidas e nem de horizontais para descanso. A inclinação aumentou muito e isto acentuou bastante a sensação de peso da mochila (lembra das componentes X e Y das aulas de física?).

Finalmente, quando parecia que só terminaríamos a trilha no céu, ouvimos as abençoadas vozes de Odette e Scott, nossa equipe de apoio. Pronto! Chegamos! eles estão nos esperando no final da trilha... Doce ilusão. Receosos pelo desafio inusitado que nos propusemos, sem termos uma noção precisa de quanto tempo levaria esta aventura, eles começaram a descer a trilha para nos encontrar quando acharam que já era tempo de preocuparem-se. Pois bem, a agradável sensação de terminar este pesado desafio foi adiada por mais 45 intermináveis minutos, quando finalmente chegamos ao topo da trilha North Kaibab. O cronômetro marcava 9:52h e o freqüencímetro cardíaco indicava um gasto de 6.800 kcalorias. Estávamos a 2515m de altitude e havíamos atravessado 33,6 km de trilhas vendo locais surpreendentemente lindo e inesquecíveis.

Agora era descansar de mais esta e pensar na idéia que Cathy e eu tivemos para uma aventura no Alasca...



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