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A entrada estreita logo nos levou a uma trilha de água, um riacho que corre para o seio da Terra, como se fosse o seu sangue à procura de descanso em seus vales profundos. Seguimos o curso das águas barrentas durante longo tempo, até que ela nos cobriu até o peito. Cavidades e labirintos de rochas deslumbrantes, pareciam gigantes adormecidos. Pacíficos morcegos voaram e logo se esconderam , talvez por reconhecer o bicho homem, o inimigo número um de grutas e cavernas.

Na escuridão do rio subterrâneo surgiu a cachoeira com mais ou menos 10 metros, onde praticamos o canyoning. Foi um dos pontos mais emocionantes do percurso. Depois de presa na corda e devidamente assentada na cadeirinha, segurei a corda com a mão esquerda e com a mão direita nas costas, à altura da cintura, fui controlando o ritmo da descida. Com o feixe de luz do capacete fui selecionando onde pisar, e passo a passo cheguei lá em baixo tão rapidamente e com tanta facilidade, que quase não pude sentir o sabor do novo. Mas, pude compreender que o novo não está no que esperamos, mas na realidade que do profundo do ser emerge a cada instante, quando estamos receptivos, atentos e destemidos. E todo novo caminho precisa de pés destemidos para abri-lo.

E foi ali na profundeza da Terra que senti, mais uma vez, a minha união com ela, toda coberta de barro . Morta de frio com a roupa molhada, incapaz de me separar de minha verdadeira Mãe a Terra, senti-me deslumbrada por suas indescritíveis belezas e incapaz de conhecer todas as suas profundezas.

Depois de chegar à profundidade máxima da caverna iniciamos uma pitoresca escalada para retornar à superfície, por outra entrada. O retorno foi uma emocionante escalada por pedras secas, entre abismos, ao som da cachoeira. Homens e mulheres se uniram no empreendimento. À menor dificuldade do caminho sempre existia a mão fraterna de um cavalheiro estendida, todos caminhando juntos, em unidade. Naqueles breves e emocionantes momentos , com certeza, assumimos a consciência de que somos parte de um ecossistema espiritual, criado pela própria Terra, e estamos aqui para cooperar uns com outros, para colaborar com todos os seres, tornando-nos servos da vida.

Ao sair da caverna com os trajes molhados e tintos de terra, pude voltar ao meu estado natural e libertar minha essência auto-efulgente, com a certeza de que não precisamos de enfeites e nem de roupas luxuosas, somente de um coração vestido e adornado com o amor por tudo que vive. Com o corpo coberto de barro e os cabelos em desalinho, me senti tão bela quanto os animais e as flores.

Edna Cardozo Dias é Presidente da Liga de Prevenção da Crueldade contra o Animal e Vice-presidente para as Américas da Association Internacionale pour la Protection des Animaux.



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