Muito além da liberdade, as minas dos Campos Gerais

Por : Edna Cardozo Dias

" O oxigênio que aqui se respira nesta Capitania é o da liberdade!". Esta célebre frase foi proferida pelo Conde de Assumar, então governador da Real Capitania das Minas de Ouro e dos Campos Gerais dos Cataguases ( Minas Gerais), no início do século XVIII, em carta dirigida ao Rei D. João V, após mandar queimar o Morro de São João, conhecido como Morro da Queimada, no intuito de conter uma rebelião na conhecida cidade de Ouro Preto.


Mina do Chico ReiOuro Preto não é conhecida apenas por suas belezas barrocas, mas por sua história, pelos ideais libertários do povo mineiro, por sua beleza montanhosa, suas cachoeiras e suas minas de ouro, que guardam a eterna lembrança da ferrenha luta contra o colonialismo no Brasil.

Tudo começou em 1693, quando bandeirantes paulistas encontraram o primeiro ouro na região. D. João V, Rei de Portugal, ficou eufórico com a notícia, e a Coroa portuguesa passou a administrar a exploração do metal, embora a maior parte do ouro abastecesse o tesouro britânico para pagamento de dívidas.

Várias minas jazem no subsolo da lendária Vila Rica, hoje Ouro Preto, patrimônio cultural da humanidade, constituindo um dos atrativos turísticos do local. A mina mais famosa é a Mina do Chico Rei. Chico Rei nasceu na África, com o nome de Galanga, e era rei do Congo, República do Zaire, depois de 1917. Foi capturado pelos portugueses, com toda sua tribo, para trabalhar como escravo nas minas de Ouro Preto, aqui chegando em 1740. Recebeu batismo romano e um nome cristão, Francisco, e logo ficou conhecido como Chico Rei. Major Augusto, proprietário da mina da Encardideira comprou todo o lote de escravos. Chico Rei logo se destacou como um grande líder, procurando aliviar o trabalho de sua tribo. Na época os negros eram submetidos a uma vida de difícil trabalho e muitos castigos.

Major Augusto , que muito respeitava Chico vendeu-lhe a mina decadente no final de sua vida, e nas mãos deste ela passou a prosperar. Chico, que já era forro, usou o ouro extraído da mina para alforriar escravos, ficou conhecido como o rei dos escravos. Com a libertação dos escravos em 1888 a extração do ouro foi interrompida e a mina ficou esquecida até 1950, quando o jovem Giovanni, atual morador da casa de Major Augusto, encontrou a mina, e batizou-a com o nome de Mina do Chico Rei, em homenagem ao homem que nunca deixou de ser rei.

Fonte do Bem QuererA Mina de Chico Rei é escavada artesanalmente, com 80 km2 de bifurcação distribuídos em cinco andares. Possui uma galeria de 11.500 metros, e está iluminada em toda sua extensão até um salão de cristais. A mina, que está sendo mapeada por estudantes de geologia estende suas galerias até a Casa dos Contos e a Escola de Minas, antigo palácio do Governador.

Depois da Igreja de Santa Efigênia, construída pelos escravos para sua devoção, com ouro que escondiam nos cabelos e nas unhas, chegamos à Mina da Fonte do Bem-querer, no Bairro Padre Faria. Pertenceu ao não menos famoso Felipe dos Santos e Pascoal da Silva. Felipe entrou para a história depois de liderar a Revolta de 1720. A Coroa estabeleceu que todo ouro deveria ser recolhido à casa de Fundição e dele se retiraria um quinto para os cofres de Portugal. O Conde de Assumar fingiu concordar com as reivindicações de Felipe, para depois prendê-lo, amarrá-lo em cavalos, e ordenar que fosse arrastado, ainda vivo, pela cidade, além de mandar queimar a casa dos rebelados.

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